segunda-feira, 30 de abril de 2012

Maturidade

Aos pés da rija carne
Larguei minha longevidade
Inútil riscado do tempo
No trato de tal sublimidade
Na areia dessa praia
Escrevo trêmulos versos

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Para os amigos

Toda vez que fico doente penso que vou morrer. Uma unha encravada e já começo a me despedir dos familiares e amigos. Tem sido assim desde os cueiros, essa é a tônica, a crônica de minha vida. Tenho medo da morte desde quando tinha medo dos mortos, o que me garantiu vários conselhos de minha sábia avó: “Meu filho, tenha medo dos vivos.” Ao passo em que esse temor cresce a morte me fortalece e me fortalecerá até o dia em que esse cara de pau aqui vestir o paletó de madeira. Minha missão? Deixar o meu sorriso no sorriso de quem por perto estiver, quero a profusão do amor, quero aliviar a dor. Quero ser para os meus amigos férias em Natal, bloco dos sujos no carnaval, poema de Drummond, crônicas do Millôr, e como o Jobim, nunca perder o Tom. Esse texto efêmero como a vida e simples como eu, despeço-me com: Valeu a pena! PS: Então viva a vida, pois ela não nos dá a chance de PS.

sábado, 7 de abril de 2012

Coletivo

Na caravana da vida, conselho é cambada, congresso é corja. O fato, esse era de cabra, agora é de lobos... alcateia de engravatados. E nós, um bando de cáfila, falange proletariado a viver em manada (ô vida de gado) a mercê da matilha de súcia.

terça-feira, 20 de março de 2012

A cura e a doença

O uniforme maculado de mediocridade carrega nas costuras as trevas da alienação. Eles cambaleiam sorridentes rumo ao cemitério de mortos-vivos. A farra do farto mundo vazio leva a dezenas de exonerações num parco período de tempo. E os doentes fazem hola cada vez que um World Trade Center de bagagem cultural desmorona-se nos braços do seu Duc. O seu Duc não se incomoda e muito menos investiga tanto desmoronamento. Com mão de obra barata, ele constrói um novo prédio num fechar de páginas e traça as metas de novas conquistas. Metas ambiciosas. Conquistar noventa e um por cento de autômatos e dar cabo a não natural função de PENSAR. ( to be continued)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A gulosa

LOIRA FAMINTA, boca aveludada e bumbum G. Realizo seus desejos completos. Carinhosa e não sou careta. Quer conferir?Fone: 7823-1180. Cada anúncio naquela folha de classificados era como lotes de terra batida de luxúria. Metro quadrado de sussurros e gemidos vendido a preços populares. O prazer da carne nu e cru oferecendo o profano pincelado de sagrado por aquelas gêmeas da Eva. Meus olhos sobrevoavam aquele latifúndio do amor fácil e aquelas palavras maquiadas do pecado da gula incharam minha libido a ponto de tufar tanto dentro do meu saco da tentação que minha vida monogâmica foi tornando-se flácida. Syleuza deslizava de uma extremidade a outra na cama, remexia, gemia e gemia enquanto descansava seus duzentos e oito ossos fraturados de mordidas. Ela hibernava em desejos reprimidos. Pensei em acordá-la para serenar os ânimos e acabar com seus sonhos calientes e os meus indecentes, porém impermeabilizada estava ela. Amarrotei o jornal e o larguei ao lado da cama, desliguei o abajur e deitei meu corpo em labaredas. Queria a luz do dia invadindo a janela do quarto para, enfim, apagar aquele fogo. Insistentemente boca aveludada... Desejos completos... Bumbum G. ... Carinhosa... Latejavam em minha cabeça. Levantei-me e desembrulhei aquele cataclismo de desejos. A transgressão me lambia a pele. Ligo ou não ligo? Era a pergunta que não queria emudecer. Ainda que roído pelas traças do tempo, o respeito, órgão vital em um relacionamento pulsava forte em meu crânio calvo apesar do cárcere privado que se tornara meus mergulhos em límpidos aquários. Na geografia da Syleuza tinha eu migrado de porto seguro para porto velho. Ela é carinhosa e não é careta. Bom, mas por que ela não colocou a idade? E se for uma velha e gorda? Careta? Se for para ir ao inferno, é melhor que seja acompanhado de uma mulher jovem e bonita. Então, como um bom professor de lingüística, fiz uma breve análise do discurso. Careta é uma palavra anacrônica. Essa loira deve ter seus quarenta e cinco anos. Puta velha... Poderia ligar para outra terceirizada, era assim que encararia aquele encontro, no entanto caros leitores, a palavra tem poder e faminta foi a que despertou meu interesse e abriu meu apetite. Syleuza continuava a gemer e a rolar na cama de meus pesadelos. Os ponteiros do relógio na parede refletiam o meu instinto e protagonizavam o meu futuro ali na horizontal um em cima do outro. Vesti-me de coragem e liguei fragmentando a fala. Uma voz lânguida invade meu ouvido. - Olá, boa noite. - Loira... Loira fam... Faminta? - Loira glutona! - Qu... quanto... cu... custa? - Cento e dez reais por uma hora e meia. Pronto. Juntei a sede com a vontade de comer. Detalhes acertados, com a testa beijada deixei Syleuza em meio a devaneios impudicos e desgarrei-me dos braços do espantalho da solidão rumo ao breu daquele encontro às escuras. A tentação arreganhara de vez seus dentes em minha direção. Cheguei a casa 171 na Rua Belo Horizonte ciceroneado pelo medo e através da campainha anunciei minha chegada. A porta abre-se rangendo no silêncio palpitante daquele momento e vejo a dois passos de mim cento e dez quilos de uma loira faminta... Engoli a seco as imagens do meu pensamento e extraí, testemunhado pela lua minguante, as presas afiadas da tentação.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mundo de Vidraças

Na noite em que pingos de espírito natalino encharcam de altruísmo os corações mais fleumáticos, Joaquim com seus cabelos pretos e bigode alvo racha a pele na sequidão de seu deserto intrínseco. Criado pela madrinha cujo senso de família ficou arraigado em tenra idade, ele era o próprio compêndio de uma aridez emocional. Teve a chance de pontilhar as letras castrada pela dura cartilha de uma criança que tinha o pedido de benção guardado no bolso do abandono desde os primeiros cueiros. Adultecera cedo e a perene ojeriza pelas relações familiares era o cume de um legado degenerativo. Experiente aos dezenove anos ganhava pouco dinheiro com muito trabalho para a madrinha – pois, ele não via um único centavo do salário - singrando as águas pálidas do Solimões e as negras do Negro como ajudante de bordo do motor de linha Andrade. Carregar fardos de feijão, farinha, engradados de cerveja era bem mais leve que o fardo do desamparo. A ausência da figura paterna pesava como uma cruz em cada braço. Seu Luís, proprietário do Andrade, tentava debalde assumir o papel de educador com receio de vê-lo às cegas em caminhos lôbregos. Num recreio carnavalesco lá pelos rincões do Careiro da Várzea Joaquim encontra o fim dos dias insípidos no olhar rutilante de Nonatinha. Foi amor à primeira vista. Aquela carioca de cabelos na altura dos ombros e olhos arredondados lhe caiu como uma tábua de salvação. E incentivado por ela e corroborado pelos conselhos de seu Luís largou a vida de marítimo para trabalhar por conta própria e logo a prosperidade bateu-lhe a porta e o matrimônio pousou-lhe sobre os ombros oito meses depois de muitos encontros às escondidas. A união foi o visto para a liberdade. O casulo matrimonial de muitos é a carta de alforria de outros. Já no primeiro Natal, o primeiro em família com direito a ceia e estouro de champagne, deixou a esposa em casa com a desculpa de ir ao açougue apanhar sua capanga com a renda do dia e viu o romper da aurora no puteiro Maria das Patas. O sereno boêmio da Manaus dos anos setenta lhe caíra como um véu. O brilho da primeira estrela no céu era o convite da metáfora do prazer àquele notívago outrora reprimido. As noites no Maria das Patas – reduto dos açougueiros e taxistas – roubaram aquele homem renegado pelo pai dos braços daquela que seria capaz de cortar os pulsos por ele. Todas as noites Nonatinha ameliamente esquentava a janta, arrumava a mesa e o esperava perfumada de esperança de que com a chegada da primeira filha a gandaia juvenil se esvairia. Mero engano, com as rugas marcando a passagem do tempo em sua face, Nonatinha, doméstica não letrada, resolutamente embrulhara a esperança num papel de resignação estóica. Os filhos foram nascendo um atrás do outro, todavia o sangue farrista do pai ausente lavava as veias de Joaquim não o permitindo largar o osso da velhacaria. O coração leviano o mantinha refém das portas mundanas que o dinheiro abria. Com o aumento da prole e a concorrência de algumas bocas profanas disfarçadas de sobrinhas da madrinha, os negócios ancoraram em meio a um lodaçal movediço. Por conta da escassez do dinheiro o ritmo frenético de suas farras e a presença constante dos amigos foi se desvanecendo. Os arranca-rabos se hospedaram na casa metade de madeira, metade de alvenaria. A casa era a própria síntese do casal. Sem mais as porções de ilusões proporcionadas pelos rabos de saia Joaquim queria, em plena véspera de Natal, encontrar o pai como se sua benção o libertasse do pântano da solidão...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Vitrines

Braços cruzados para trás, passos curtos, queixo no peito, balbucio na ponta dos lábios típico dos insanos e a companhia itinerante de dois vira-latas. O desvario do cabelo prateado endossava a suspeita de mais um órfão da sanidade mental vitimado pela finitude terrena.
Assim perambulava em meio à multidão pelas ruas do centro da cidade um dos moradores mais antigos da av. Eduardo Ribeiro, seu Bafo de Onça. Depois que ficou viúvo a casa tornara-se quase que inóspita. Só pisava naquele assoalho para descansar as pálpebras. A fachada da casa retratava fielmente as fraturas que a morte da esposa causara em sua vida.
A solidão fermenta a loucura quando a viagem aos porões da alma se dar pós encontro da vida com a morte. Sem mais os ouvidos atentos de sua amada, não era possível agora ouvi-lo cantando todo santo domingo:
“... Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
“Que entornas no chão...”
As Vitrines, de Chico Buarque, era a música favorita dela. Bafo de Onça perdera a poesia que galopava em suas veias e se isolou como alguns falaram, ou se libertou como falaram outros, em um mundo sem vaidades e sem as fatias do tempo. Completamente raptado pelo desapego as coisa materiais, respirava dor, porém buscava na transparência das vidraças a certeza de encontrar o esplendor da verdade sem o absolutismo pregado pelo casal de filhos que tentou, sem sucesso, interná-lo em um sanatório.
Eles são todos loucos!Mais cedo ou mais tarde vou encontrá-la, ela foi às compras, só isso. Esse era seu mantra. Bafo de Onça dava mais ouvido aos dois cachorros que aos próprios filhos que vez por outra o ironizavam ao dizer-lhe da proximidade de tal encontro. De fato pai, o senhor está prestes a encontrar a mamãe, mas não nesse plano terreno. Alimentar-se só de esperança encherá seu peito de terra e seu corpo de pebas. Cravou a filha.
Retornar para casa à noite não mitigava a saudade dos quarenta anos dedicados àquela mulher de um homem só. E sem a companhia dos vira-latas a atmosfera era ainda mais lúgubre musicado pelos pingos da torneira da pia metaforizando o choro dos amantes.
Isaura, a filha mais velha, percebera a ausência dos cachorros naquela semana e os reconheceu dormindo em frente da Mesbla sob o sereno de março. A loja ganhara dois cães de guarda enquanto Bafo de Onça, enfim, gozara da tranqüilidade de noites bem-dormidas. E a filha estranhara a súbita mudança de ares.
Domingo, oito de março amanheceu e Bafo de Onça acordou cantarolando, sacou do guarda-roupa a sua melhor roupa, reconciliou-se com o chuveiro, preparou um bom café da manhã e foi ao encontro dos seus fieis escudeiros que durante uma semana fizeram vigília na porta da loja de departamentos. Antes, porém, passou em uma floricultura, comprou um bouquet de flores e com um sorriso tatuado no rosto chegou ao seu destino. Os cães fizeram a festa e sem cerimônias diante da vitrine ele entregou seu sorriso àquele manequim utopicamente perfeito e bailou cantando:
“... Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
“Que entornas no chão...”